Macrophomina: Um Problema “Desapercebido”

Olá, pessoal! Nesta matéria trataremos de uma doença da soja que nesta última safra, especialmente no norte do Paraná, mostrou sua face mais impiedosa. Além dos prejuízos ocasionados pela severa estiagem, a ocorrência da Macrophomina aumentou estas perdas em várias propriedades, justamente devido às condições climáticas que caracterizam os períodos de seca.


A Macrophomina ou podridão de carvão, causada pelo fungo Macrophomina faseolina (Tassi) Goid., afeta raízes e caule de soja, mas esta não é a única cultura que sofre com o fungo. A doença é capaz de infectar muitas espécies como: milho, sorgo, amendoim, algodão, girassol e outras.


Na soja, essa doença tem sua importância desprezada, talvez por apresentar sintomas nos estágios finais de desenvolvimento da cultura, confundidos com outras doenças e nematoides ou então ser atribuído à seca e/ou manchas de solo.

Vamos mostrar aqui alguns casos de lavouras acompanhadas pelo programa AgroEvox, nas quais foi diagnosticada a ocorrência de Macrophomina e avaliadadas as perdas por regiões do talhão. Mas antes é importante caracterizarmos alguns aspectos relativos a esta doença na cultura da soja.


Os sintomas na soja variam de acordo com a idade da planta e momento da infecção. O amarelecimento é progressivo, levando a planta a murchar. As folhas permanecem aderidas, mas caídas ao longo das hastes (principal característica), posteriormente tornando-se secas e de coloração marrom-escura (Figura 1). Nessas plantas, as raízes apresentam a epiderme solta, ou facilmente destacável, deixando à mostra pontuações negras, que são os microesclerócios (Figura 2).


Figura 1 - Aspectos de lavoura de soja afetada com Macrophomina, mostrando a divisa entre plantas afetadas e plantas normais no município de Apucarana–PR, no destaque as plantas atacadas



Figura 2 – Detalhe de planta atacada por Macrophomina, na ampliação os microesclorócitos.


A incidência e a severidade dessa doença aumentam quando a lavoura é estressada por falta de água e por excessivo calor. Uma possível alternativa para o manejo da doença poderia ser a rotação de culturas, porém devido ao fato deste fungo ser polífago, além de sobreviver e se multiplicar em restos de cultura é duvidoso o uso de rotação de culturas para essa finalidade.


Os microesclerócios são liberados no solo, quando em contato com a região do colo ou da raiz da planta, germinam e infectam as raízes. Nem todos germinam na mesma época, assim, um microesclerócio pode ter células germinando e infectando plantas em diferentes estágios.


Na realidade brasileira, a infecção por Macrophomina é favorecida em condições de solos compactados e submetidos a elevadas temperaturas (acima de 50° C na superfície do solo, nas horas mais quentes do dia), condições muito comuns na região Norte do Paraná, especialmente na última safra de 2021/22.


Agora que conhecemos um pouco do que é a doença, vamos compartilhar nossa experiência de como a Macrophomina se distribuiu geograficamente nos talhões, como a mesma evoluiu durante o ciclo da cultura nesta safra e quais as perdas resultantes de sua ocorrência.


Quando se considera sua distribuição no talhão e a partir de quando foi possível detectar sua presença na área, avaliamos a sequência de imagens abaixo de um talhão cultivado com soja. Estes mapas são referentes ao índice de biomassa e fotossíntese, obtida pelas passagens do satélite Sentinel nas datas de 03/12/2021, 28/12/2021 e 22/01/2022. Na Figura 3 podemos observar que a lavoura de soja em 03/12/2021 (figura 3A) demonstrava na região em destaque comportamento médio, demonstrado pelas cores verde claro e branco no destaque, essa mesma área a partir da data de 28/12/2021 começou a ter desempenho abaixo da média representada pela cor roxa na imagem abaixo, figura 3B. A mesma região em 22/01/2022, figura 3C, demonstrou o aumento da área com desempenho abaixo da média, sendo que o diagnóstico realizado em campo indicou que a causa deste declínio do desempenho da lavoura foi a alta incidência de Macrophomina a partir do estágio de R3 na cultura.



Figura 3 - Imagens do índice de vegetação de um talhão do município de Cambé-PR


Na figura 4, que caracteriza a taxa de evolução do índice de vegetação acima (figura 3), observamos que na lavoura dentro da região de destaque, as taxas de desenvolvimento foram nulas ou até mesmo negativas, isto fica ainda mais crítico por ser entre o período entre 03/12/2021 e 28/12/2021, que deveria ser um período de grande desenvolvimento da lavoura por estar situado entre os estágios fenológicos de R3 e R5.



Figura 4 – Evolução do índice de biomassa e fotossíntese entre as datas de 03/12/2021 e 28/12/2021


No talhão acima, a doença poderia ter sido detectada a partir do dia 03 de dezembro de 2021, nas condições climáticas desta safra 21/22, desde que se fizessem análises fitopalógicas, com o apoio de imagens de multiespectrais (imagens obtidas com sensores fotográficos especiais que registram os diferentes comprimentos da onda de luz em cenas separadas). Esta mesma condição se repetiu em mais outras cinco (5) áreas monitoradas e com diagnóstico de Macrophomina confirmados, indicando que o início dos sintomas coincidiu com a forte estiagem ocorrida na região.


Quando se busca qual condição da área tem relação com a ocorrência de Macrophomina, recorremos ao histórico do talhão com o índice biomassa e água. Este histórico - demonstrado na figura 5 - tem uma relação grande com o mapa de colheita da figura 6 e com a ocorrência da doença. Este histórico representa o comportamento médio dos últimos sete (7) cultivos na relação de biomassa e água na planta, podendo ser atribuído a algumas causas, como gradiente de fertilidade, presença de nematóides e compactação de solo.


No que diz respeito a este talhão que é acompanhado pelo programa Agroevox, não temos nenhum indicativo de que a fertilidade e nematóides estão relacionados a este comportamento, onde as áreas em azul tem melhor comportamento do que as áreas em amarelo com pior comportamento na figura 5. Porém, quando se realizada análises de compactação de solo georreferenciadas, as manchas são muito coincidentes, indicando que a compactação é o principal fator responsável pelo comportamento de água na biomassa, bem como um fator que predispõe as plantas à ocorrência de Macrophomina.



Figura 5 – Mapa do histórico médio do indicador de biomassa e água na planta de talhão situado no município de Cambé-PR


Na figura 6, observando o mapa percebemos que a produtividade está muito relacionada ao histórico de comportamento de água na planta Se considerarmos que a área tem regiões onde o solo está mais compactado do que em outras é nestas regiões que a Macrophomina teve maior incidência, portanto, podemos concluir que no talhão a produtividade média poderia ter sido sensivelmente maior sem os efeitos da doença e da compactação de solo. Apesar da limitação pela estiagem, o talhão obteve média geral de 110 sacas/alqueire ou 45,5 sacas/ha.


Porém, estratificando esta produtividade em níveis, conforme mapa da figura 6, na faixa abaixo de 95 sacas/alqueire temos aproximadamente 28% da área total do talhão (9,7 alqueires ou 23,4 hectares total). Nesta faixa se concentram a maior severidade dos danos de Macrophomina, portanto temos uma redução de produtividade em relação à média de pelo menos 15 sacas/alqueire. Quando comparamos esta redução de produtividade em relação a área de maior produtividade (acima de 120 sacas/alqueire) temos uma redução de produtividade estimada em 25 sacas por alqueire.



Figura 6 – Mapa de produtividade de um talhão no município de Cambé-PR


É claro que fica difícil separar o que é dano devido a compactação de solo e os prejuízos da ocorrência de Macrophomina, mas fica evidente que a ocorrência da doença mais os efeitos da compactação de solo afetam negativamente os resultados da lavoura justamente quando o produtor mais necessita de resultados melhores.


Outro aspecto muito importante que é obtido com o apoio da agricultura digital é a avaliação do benefício que as práticas de melhoria da condição física do solo e manejo da doença irão resultar nas próximas colheitas, assim o agricultor terá condições de decidir sobre descompactação do solo, plantio de cobertura em vez de lavouras comerciais, entre outras práticas que o auxiliam a obter resultados de produtividade melhores.


Abraço até a próxima!


Por Francisco Nogara Neto


Referência bibliográfica:

Macrophomina phaseolina em soja. Londrina – PR: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa Soja, 2014. 30p.